No dia da Educação, especialistas apontam as principais qualidades de um professor.
Diante da lousa, com a autoridade de quem detém o saber, o
professor discursa. Em silêncio quase sepulcral, os alunos escutam. Não há
brecha para questionamentos nem discussões. Corriqueira algumas décadas atrás,
a cena descrita já não existe mais. Ou, se existe, está com os dias contados —
assim como a figura daquele velho educador.
Com o século 21, não por acaso batizado de "século do
conhecimento", nasce um novo mestre. Com o intuito de valorizá-los, o
movimento Todos Pela Educação acaba de lançar uma campanha de mobilização, que
a partir desta quinta-feira — Dia da Educação — ganha destaque na mídia
nacional. Com o slogan "Um bom professor, um bom começo", a intenção
é reforçar a importância desses homens e mulheres e pressionar por melhorias.
— O professor tem uma posição estratégica no século 21. Só
que ele também precisa ser valorizado, e isso inclui salários iniciais
atraentes, plano de carreira e melhores condições de trabalho. Sem isso, não
basta ter brilho nos olhos e, como a gente diz aqui no Nordeste, fogo nas
ventas — diz Mozart Neves Ramos, professor da Universidade Federal de
Pernambuco e conselheiro do Todos pela Educação.
Mais do que simples transmissor de conteúdo, esse novo
profissional atua como um guia. Em meio à avalanche de informações despejada a
cada segundo sobre crianças e adolescentes, é ele quem indica o caminho.
Trata-se de um tutor, que dialoga e provoca. Tem paixão pelo que faz, segue
estudando, preocupa-se em falar a mesma língua dos pupilos e nem de longe é um
analfabeto digital.
Nesta reportagem, especialistas apontam as principais
qualidades de um bom educador. O professor ideal deve...
1) Gostar do que faz
Mais do que qualquer profissional, quem opta pelo magistério
tem de ter paixão por ensinar e se orgulhar de seu papel na sociedade. Quanto
mais os alunos sentirem essa empatia, garantem especialistas, mais abertos
estarão à aprendizagem e melhor será o desempenho em sala de aula.
— O bom professor não apenas deve ter orgulho da profissão,
como deve defendê-la com garra. Ele é um otimista, um sonhador. Tem a utopia de
um mundo melhor, sem a ingenuidade da busca de resultados fáceis e sem se
abater frente aos obstáculos — afirma Francisco Aparecido Cordão, presidente da
Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) e
diretor-presidente da Consultoria Educacional Peabiru.
Em contrapartida, reconhecem gestores e estudiosos, o
educador que ama o que faz e se dedica de corpo e alma ao trabalho também
precisa ser valorizado por isso. Melhores salários e condições de trabalho são
considerados fundamentais.
2) Ter uma boa formação
Para cumprir com louvor o seu papel, o professor ideal
também deve ter uma formação sólida e ampla. Esse processo, segundo a
superintendente de Educação e Pesquisa da Fundação Carlos Chagas, Bernardete
Gatti, deve incluir o domínio dos conteúdos da disciplina escolhida e, em igual
peso, o conhecimento das metodologias e práticas de ensino.
— De nada adianta saber o conteúdo, se o educador não
consegue transmiti-lo aos alunos. A maioria dos cursos não tem nem 10% de
formação pedagógica, e esse é um problema sério, que precisa ser repensado —
alerta Bernardete.
Além de uma boa base, a diretora do Sindicato dos
Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS), Cecília Farias,
destaca a importância de haver continuidade nos estudos. Para acompanhar a
velocidade das mudanças na sociedade atual, os mestres precisam se manter
atualizados — e, para isso, devem contar com o apoio dos gestores, públicos ou
privados. Além de uma imposição profissional, esse deve ser um desejo pessoal.
3) Falar a língua dos alunos
Não se trata de adotar as gírias ou se comunicar como um
adolescente, mas de entender o universo da garotada e planejar aulas que levem
em conta esse jeito particular de ver e viver o mundo de hoje.
— O professor tem de compartilhar o mesmo universo dos seus
alunos e ser um pouco artista diante desse público. Se ele não usar isso a seu
favor, se não falar a mesma língua deles, corre o risco de se transformar em
uma cápsula de sonífero — diz o consultor educacional do Fronteiras Educação —
Diálogos com a Geração Z, professor Francisco Marshall, da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Isso significa, por exemplo, estimular a interatividade e
evitar falar sozinho, sem parar, uma aula inteira. Significa, também, não
subestimar os adolescentes. Foi-se o tempo em que o mestre era o dono do
conhecimento. No passado, ele falava e os estudantes ouviam em silêncio. Hoje,
ele deve estimular o diálogo. Se, para isso, for possível usar e abusar de
recursos audiovisuais, como projeções de imagens, vídeos e músicas, tanto
melhor.
4) Usar as novas tecnologias em aula
O educador do século 21 não pode ser um analfabeto digital.
Ignorar ou repudiar a influência da internet na vida dos alunos é aprofundar o
abismo entre os estudantes e a escola.
— Ao tirar proveito disso, o professor traz a realidade da
criança e do adolescente para a sala de aula. É uma forma de aproximação e,
além disso, uma maneira de apresentar o conhecimento de um novo jeito — afirma
a professora Maria Elizabeth de Almeida, da Faculdade de Educação da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Não basta, porém, dominar a tecnologia. É preciso que o
educador saiba aplicá-la. Primeiro, é importante que navegue nos sites
preferidos de seus pupilos e faça parte das redes sociais para entender sua
lógica. Depois, a ideia é que explore o potencial dessas ferramentas de forma
criativa.
Por que continuar restrito ao velho mapa-mundi se pode usar
programas gratuitos como o Google Earth para mostrar regiões, países e cidades
em detalhes? Por que não estimular a garotada a escrever microcontos no
Twitter? As portas que se abrem são infinitas.
5) Ir além do conteúdo formal
O bom professor, ressaltam especialistas, deve saber que sua
missão profissional não se resume a repassar o conteúdo da disciplina. Hoje ele
deve ser um guia, um tutor. O velho chavão "ensinar para a vida"
continua valendo. Cabe ao mestre, junto com a família, difundir valores éticos
e morais e fazer com que crianças e adolescentes sejam capazes de fazer
reflexões críticas.
Para Maria de Salete Silva, coordenadora do Programa de
Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, ir além
do conteúdo implica usar as experiências vivenciadas pelos alunos como ponto de
partida para discutir assuntos importantes e transmitir ensinamentos.

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